Sangue Quente /// Zumbis e Tolerância

Muita gente pode ter deixado de comprar o livro Sangue Quente, de Isaac Marion, graças a frase estampada em sua capa.

“Nunca pensei que poderia gostar tão apaixonadamente de um zumbi. Fiquei pensando na história muito tempo depois de acabar de ler o livro.” – Stephenie Meyer, autora da série crepúsculo.

Se você, como eu, não suporta a série dos vampiros que brilham no sol, pode se assustar ainda mais com o que vou dizer em seguida: Sangue Quente tem potencial para ser o novo Crepúsculo. Mas calma, isso não precisa ser necessariamente ruim (ou bom, caso você seja fã de Bella e Edward) é apenas a constatação de que o livro de Marion é uma trangressão romântica de um tema clássico de horror. Isaac Marion está para os zumbis assim como Meyer está para os vampiros.

Mas as semelhanças talvez parem por aí. A primeira grande transgressão do escritor é colocar o zumbi, tradicionalmente coadjuvante, como protagonista e, veja só, narrador da história. Mas R, como ele se autodenomina, não é um zumbi estúpido como os tradicionais. Ele é uma mente consciente, ainda que deteriorada, presa a um corpo sem vida. Seus pensamentos são coerentes dentro de sua nova realidade de morto-vivo, mas não pode expressá-los e tampouco consegue resistir ao desejo inconsciente de consumir carne humana. E se a carne pulsante de vida é seu alimento básico, os cérebros são uma iguaria disputada e capaz de trazer lampejos de vida aos mortos que caminham. E essa é a primeira contribuição de Isaac Marion à mitologia zumbi: ao fazer uma analogia entre mortos-vivos e dependentes químicos, o autor torna muito mais fácil aceitar e perdoar os atos do protagonista. Os zumbis de Marion não tem culpa de serem vítimas de uma praga moderna, tal qual os dependentes químicos.

Mas esta não é a analogia mais importante que o autor nos apresenta. Ao atacar um grupo de humanos, R devora o cérebro de Perry, um jovem que é apaixonado por Julie, uma garota de 19 anos, fã de Beatles e Sinatra. Algo de diferente ocorre com este cérebro em especial. Ao absorver parte de sua vida, R se submete a uma avalanche de emoções e vivências de Perry, fazendo com que este se torne parte da sua essência. Inexplicavelmente o zumbi sente uma necessidade incontrolável de proteger Julie, que por pouco não é devorada no massacre, e com a convivência com a garota vai, aos poucos, reencontrando sua humanidade. Se antes a analogia poderia remeter ao uso de drogas, a aproximação de R e Julie mostra que uma simples atitude pode salvar o mundo: tolerância.

Julie confia na mudança de R como indivíduo e passa a nutrir uma genuína afeição pelo zumbi. Se o mundo não consegue acreditar que alguém tão diferente possa ser, na verdade, tão parecido, Julie fecha os olhos para as diferenças e se atém apenas aquilo que os aproxima. Enquanto o mundo tenta impor muros e barreiras às relações humanas, R e Julie são a prova de que a abraçar o diferente não significa abrir mão de sua própria identidade. Isaac Marion não narra uma simples história de Romeu&Julieta com zumbis, mas adiciona várias camadas de possíveis interpretações a um estilo que já transbordava de críticas sociais. Se Romero mostrou os malefícios do consumismo exagerado com seu Madrugada dos Mortos, Marion dá um tapa na sociedade dominada pelo falso moralismo e politicamente correto. De fato não é de estranhar que a autora de Crepúsculo tenha gostado tanto de Sangue Quente, afinal é bom ler algo com qualidade, para variar.

 

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  • Jessica

    Não acho certo julgar sem conhecer, então vou ler o livro.
    Gostei da critica do post e um livro sempre deve passar uma mensagem no final, e creio que essa é a que estamos precisando no momento.
    Porém… o que o Pedro disse não deixa de estar certo.
    “Zumbi mata seu namorado, ao invés de buscar vingança desenvolve necrofilia”

  • Alarissa Motter

    A sei al so sei que isso e meio que “idiota ”
    Pois Zumbi pelo que todos saibam nao pensa , entao tipo isso dai nao e um zumbi e sim um cara com lentes po de arroz isso dai anoe um zumbi , The Walking Dead isso sim e zumbi .

  • Anne

    Não gostei muito dessa comparação que fizeram com crepúsculo tbm, não tenho nada contra a saga, mas o Livro do Isaac tem algo diferente. É como se ele realmente tivesse a intenção de criticar a forma como a vida anda, a forma como o mundo vai e o que podemos nos tornar futuramente. Não acredito em zumbis, obvio, mas vi isso no livro. Tem uma mensagem boa de vida, de existência, de insistência. Amei mesmo e me prendeu totalmente. Li todo em um dia, me fez me ligar a musica, aquela coisa “É fácil se você tentar” (quem ler vai entender.) Enfim, teve significado para mim. Não sei se todos tiveram essa mesma impressão. E obrigada Marton por alertar as pessoas para que elas não sigam com preconceito antes de ler. Achei que fazer um filme estragou a coisa, preferia que ficasse assim como está, por que provavelmente, querendo ou não, vão ligar Sangue Quente e Crepúsculo.

    Bjs.

  • http://www.lampertop.com.br Vanessa Lampert

    O livro é muito bem escrito, a história e os personagens são bem construídos, as explicações são verossímeis… Vi comentários de pessoas indignadas por ele ter “maculado a mitologia zumbi”…isso é ridículo. Zumbis não existem, e desde que haja uma boa premissa e o cara consiga explicar tudo direitinho (o que é o caso), pode escrever o que quiser.

    No caso, ele não quis descaracterizar o zumbi, apenas mostrar o que acontece lá dentro, por trás da aparência de cadáver ambulante. Os zumbis do livro comem cérebro e atacam as pessoas grunhindo. Eles não conseguem articular palavras e os pensamentos são bastante diferentes dos vivos, mas você acompanha um desenvolvimento emocional improvável e até um tanto quanto frio de R, mas bastante verossímil.

    Não sou uma pessoa emocional, romântica e detesto livros melosos, não me emociono com as histórias, não acho “liiiindo”. Também não sou fã de zumbis simplesmente por não gostar de terror descerebrado (apesar dos cérebros ingeridos), acho cômico e não me envolvo.

    A história é boa, bem construída, inteligente, mas na minha opinião, o livro vale muito mais pela qualidade literária do que propriamente pela história, você acaba fazendo uma porção de concessões para chegar até o final. Acho que um pré-requisito para fazer um comentário negativo a respeito do livro é ter lido o livro, desarmado de preconceitos.

    • J.

      “Zumbis não existem” Pois é, as pessoas parecem ter se esquecido disso kkk

  • Magda Souza

    Pessoal….!!!

    Acabei de ler o livro….e ele é ótimo!

    Vale muito a pena se dar a oportunidade de explorar um tema corriqueiro sobre outra ótica!

    E gostem ou não da Sthepane, ela está certa.

    Vc se apaixona pelo R.
    Se vc se envolve na leitura…viaja com a história e imagina cada cena….é impossível não gostar da história, de R.

    Alguns momentos de melancolia, não compromentem os de ação e romance.
    Na dose certa. A Julie não é uma fresca, romântica.
    É valente, determinada e até meio boca suja. rs!
    Quebrando um pouco de seu ar frágil e doce, narrado pelo R.

    O final do livro, não chega a ser óbvio mas, com uma leve dose de moralismo nos faz pensar em como somos mesquinhos e pretenciosos.

    Não vejo a hora do filme sair.
    Apesar que achei a escolha de R. fraca…na minha cabeça ele deveria ser um pouco mais velho, uns 30 anos e moreno…e não esse cara, Nicholas Hoult que mais parece um bebê!! Enfim….ele vai estar maquiado de zumbi e isso muda tudo! rs!

    Recomendadíssimo!!

    Beijos a todos!

  • Magda Souza

    Olá Pessoal!

    Estou lendo o livro e A-MAN-DO.
    O jovem aprendiz da empresa em que trabalho, Bruno Dupret, q também está escrevendo um livro sobre os zumbis, que me ofereceu!
    Li duas páginas, ainda em minha mesa e não vi a hora de pegar o frescão para a casa e poder ler mais. Li 40 páginas em 1 hora! Com todas as náuseas que tenho por ler em ônibus! rs!

    O livro é envolvente…apesar de todos os defeitos que ele possa ter mas, que só os críticos e estudados conseguem dissertar. Mas ainda sim, é apaixonante!
    E vc se apaixona pelo R.
    Quase posso me ver no lugar da Julie.

    Por mais absurda (e linda) que possa parecer a história, a considero boa, quando sinto vontade de continuar a leitura. E essa, não vejo a hora de terminar!

    Recomendo! Mas leiam e sintam a história do ponto de vista de R.
    Imaginem…..sonhem…..e essa será uma das leituras mais simples e inesquecíveis de suas vidas.

    Quando terminar, volto para dar meu parecer.

    Saudações,
    Magda Souza

  • http://www.blogdobagre.com Tittao

    Muito bom, to mais da metade, logo acabo, é um conceito novo, porem ja explorado no Filme O Dia dos Mortos de 2009

  • gyann

    Indico pra galera ver, um livro de Zumbis de verdade, Morgan: O Único, em que não tem muita frescura, e é terror puro e simples…

    além disso, é brazuca.

  • http://www.facebook.com/rafael.savazoni Rafael Savazoni

    Quando eu li a critica segunda feira, estava xingando como todos ai… mas resolvi comprar o livro já que não gosto de criticar sem conhecer, comprei ontem, terça-feira, e pra minha surpresa só parei de ler quando acabou… e mais surpresa ainda… gostei, recomendo…

  • dana

    pode estar escrito zumbi, mas antes disso vem “romance”. não adianta querer comprar um livro com uma proposta querendo encontrar outra coisa. ‘-‘
    também se acham donos desses seres, né? “só pode ser assim, desse jeito…”, ignoram até outras alterações já ocorridas. não dá pra saber exatamente de onde surgiu o zumbi e como surgiu, mas na origem mais provável eles nem comiam pessoas. na verdade, não tinham nem morrido mesmo, só achavam que sim.

  • Rodspeed

    Seguinte, qdo George Romero Criou os Zumbis, era uma analogia à Guerra do Vietnã, onde os vietnamitas eram as vitimas e os zumbis os Marines. Pq? Pq do ponto de vista dos vietnamitas, eles não sabiam de onde vinham os marines, nem o pq da guerra toda. So tinham uma certeza, a morte. Os filmes formaram um paralelo ao massacre de May Lai. Depois evoluiu para uma critica ao consumismo e por ai afora. Agora, a ditadura politicamente correta chegou aos Zumbis, com todo esse nhem nhem nhem de tolerancia.

  • Nort

    Acho que o livro deve ser muito interessante pela critica a sociedade que o autor faz, e também por mostrar uma visão diferente do ponto de vista do famigerado “apocalipse zumbi”, sou fã de séries como “Resident Evil” e “Silent Hill”, tanto jogos quanto filmes, também gosto de filmes mais antigos de zumbi em geral, e muitos de terror que abordam ou não este tema, acho que o livro seria uma leitura muito interessante.

  • Ricardo

    Rídiculo! Zumbis não tem que ser compreendidos, tem que levar um tiro na cabeça e pronto![2]

  • Consiglieri

    Rídiculo! Zumbis não tem que ser compreendidos, tem que levar um tiro na cabeça e pronto!

  • Pedro

    Zumbi mata seu namorado, ao invés de buscar vingança desenvolve necrofilia

  • Mario

    Caralho, isso é um LIXO, n consigo nunca engolir analogias como “tapa no preconceito” das dependências modernas ou zumbis ao capitalismo, volta dos mortos-vivos era cinema e pura diversão sem nenhum intuito de crítica contra capitalismo e isso daí q ta nesse livro é mais uma tentativa de fazer história romântica com um tema cult para os falsos nerds e intelectuais acharem legal e espelharem suas tensões hormonais, lixo.

  • Fernando Santos

    Interessante. Não vou ficar aqui reclamando que estão blasfemando sobre a “tematica sagrada dos zumbis”. Gosto da inovação e de cair fora da zona de conforto. Lerei. Se for uma boa historia, terá minha recomendação.

  • Matheus

    Caceta cara… além da Stephenie ferrar com a lenda dos vampiros e lobisomens vem esse cara ferrar mais ainda o mundo do terror… me vme com essa de Zumbis com sentimentos … a por favor cara… desde épocas imemoriáveis do cinema, zumbis são criaturas q comem humanos e n sentem nada pô… desse ser uma merda essa leitura… nem vo me arriscar em ler

  • http://www.epubr.com.br Everson

    Dia 26 o livro sai nesse site aqui: http://www.epubr.com.br

    Quem quiser pegar pra ler no telefone ou no tablet, é uma boa pedida.

  • Yuri

    Parece ser uma boa história. Comprarei! Valeu a dica.

  • MatheusTeixeira

    “Muita gente pode ter deixado de comprar o livro Sangue Quente, de Isaac Marion, graças a frase estampada em sua capa.” realmente, quando li isso fiz um facepalm e pensei “deve ser uma merda”. mas como eu adoro zumbis, vou comprar e provavelmente curtir

  • http://www.eduardobibiano.com.br Eduardo Bibiano

    Terminei ele semana passa, e posso afirmar que é uma otima leitura, que vai empolgando a cada pagina. Fora tomar essa nova perspectiva do ponto de vista do zumbi, e fazer isso de forma interessante foi demais. Vale muito a pena!

  • Welton

    comprei esse livro, terminei em uma semana, gostei e semana passada voltei a ler ele de novo e posso afirmar que, o que o Autor deste post fez está correto! tento passar essa informação para meus conhecidos mas todos fecham a cara quando falo que é sobre um zumbi, muitos até dão risadas da minha cara.

  • fabio

    Quem acha que isto é novo, procurem no blog “mundo gump”. Lá tem várias histórias, e uma delas sobre zumbis. Leiam.(ótima por sinal), e vejam as semelhanças.

  • http://blogdobagre.com Renan

    Interessante, vou comprar.