Filmes sobre viagem no tempo são feitos para fritar seu cérebro. Se ficarmos pensando nas possibilidades, acabamos não aproveitando plenamente o que acontece de fato na história. Um exemplo rápido: Marty McFly, em De Volta Para o Futuro, começa a sentir os efeitos de seu iminente desaparecimento da linha temporal, fruto de sua própria interferência. Mas se ele não vai existir, como poderia voltar no tempo para atrapalhar sua futura existência? A questão aqui não é nem a verdade “científica” da situação, mas repare que se você perdesse tempo elocubrando sobre as consequências de tudo aquilo, acabaria perdendo algumas das cenas mais bacanas do filme. Looper é um clássico exemplo disso. Para se aproveitar o longa é necessário deixar de lado um raciocínio mais aprofundado sobre os efeitos práticos de uma viagem no tempo, simplesmente porque isso não interessa. No universo em que a história se passa as coisas funcionam de determinada maneira e Bruce Willis faz questão de gritar isso para você e para Joseph Gordon-Levitt, exatamente no momento do filme em que essas questões se tornam inevitáveis.
A história se passa em 2044, quando a sociedade parece ter entrado completamente em colapso. Pessoas vivem em barracas na rua e vagando pelo país em busca de comida e dinheiro. Nessa sociedade as leis mais básicas de convivência parecem ter sido desconsideradas. Não se vê policiais na rua e todos andam armados para se defender dos constantes assaltos. Basicamente impera a lei do mais forte. Nesse futuro a viagem no tempo ainda não foi criada, mas em 30 anos existirá, para ser considerada perigosa demais e proibida logo em seguida. Quem continua usando o sistema são as organizações criminosas que utilizam o serviço de assassinos chamados Loopers para desaparecer com corpos que, teoricamente, ainda nem existem. Joe (Joseph Gordon-Levitt) é um desses assassinos, que acaba recebendo para execução uma versão 30 anos mais velha de si mesmo (Bruce Willis) para que possa assim “encerrar seu contrato” e passar os próximos anos aproveitando a vida. O problema é que o Joe cinquentão não parece concordar com esse arranjo e fará de tudo para alterar os fatos que acontecerão no futuro.
O roteiro, do também diretor Rian Johnson, tem toques de Exterminador do Futuro, Minority Report e Os Doze Macacos, mas agrega tantas boas ideias ao gênero que é impossível compará-lo a qualquer outro. Justamente ao não tentar explicar tudo com um technobabble qualquer, o diretor arruma espaço para rechear o filme de boas sequências e conceitos imaginativos. Se o ritmo decai um pouco, logo antes do desfecho, é somente para baixar a guarda do espectador, tornando a conclusão ainda mais angustiante. A tensão fica crescente a medida que percebemos que, por mais que sejam a mesma pessoa, os 30 anos de diferença mudaram muito Joe. O que faria alguém que já tem um espírito assassino se estivesse disposto a qualquer coisa? Qual o limite do certo e do errado quando o objetivo é um bem maior?
Os parabéns especiais ficam justamente para o trabalho de maquiagem feito em Gordon-Levitt, que nos faz acreditar que ele é, realmente, uma versão mais nova de Willis. A expressão dos olhos, testa e boca são realmente impressionantes, e só são quebrados momentaneamente quando vemos os dois atores no mesmo take. Jeff Daniels também está excelente, finalmente desvinculado de sua imagem de bobo alegre, para viver um mafioso futurista perverso. E se é difícil falar dos papéis de Emily Blunt e do garoto Pierce Gagnon sem estragar muitas das surpresas reservadas pelo filme, posso garantir que este último rouba a cena.
Looper consegue algo que é raro hoje em dia: manter a audiência em suspense. Em uma época onde sabemos tudo o que ocorre em um filme graças aos milhares de trailers e clipes lançados todos os dias, o longa consegue manter suas surpresas e, mais importante, manter-se sempre um passo a frente da platéia, além de fazê-la pensar sobre o enredo por dias. Looper não só é um suspense futurista de primeira como também um filme para ser visto mais de uma vez.







Jeff Daniels, não Jeff Bridges.
Opa! Erramos mesmo Louise. Obrigado!