As Aventuras de Pi /// Crítica

21 de December de 2012 / autor: / em: Cinema 1

asaventiraspiposter As Aventuras de Pi /// Crítica

resiliência
(inglês resilience)
s. f.
1. [Física]  Propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação.
2. [Figurado]  Capacidade de superar, de recuperar de adversidades.

Até onde podemos sofrer uma pressão transformadora sem perder nossa essência? Qual é o limite para que o crente vire descrente, e passe a ver a vida com cinismo e desesperança? Esses são alguns dos temas abordados por Ang Lee em As Aventuras de Pi.

O longa é baseado na obra do escritor Yann Martel, que gerou muita polêmica ao admitir que havia se inspirado na sinopse do livro Max e Os Felinos do escritor brasileiro Moacyr Scliar. Depois de muita discussão na internet o próprio Scliar, em um ato de grandeza ímpar, declarou que, apesar de possuir a mesma premissa, a obra não era um plágio. Independente da originalidade ou não da obra literária, a adaptação para o cinema transcende essa discussão e consegue atingir o patamar de um dos melhores filmes do ano.

Tanto no livro de Martel quanto no filme de Lee, Pi é um garoto indiano que vive com sua família em um zoológico. Como os negócios não vão bem, seu pai resolve embarcar com a família e seus animais para iniciar vida nova no Canadá. Para isso terão que enfrentar uma viagem de navio que não acaba nada bem. Único sobrevivente do desastre, Pi terá que dividir o espaço no bote com uma hiena, uma zebra ferida, um orangotango e um tigre de bengala chamado Richard Parker. As escolhas que terá que fazer e as atitudes que terá que tomar para sobreviver podem transformar Pi e tudo em que ele acredita.

pifoto As Aventuras de Pi /// Crítica

Os primeiros aplausos para Ang Lee vão para a beleza visual do filme. Realizado com auxílio de muitos recursos digitais, coisa que o diretor já disse não se sentir confortável, o longa é um espetáculo para os olhos. A beleza surreal das memórias de Pi transforma a narrativa, que poderia soar morosa e cansativa, em algo vivo e surpreendente. O belo uso do 3D cria o que faltava para nos sentirmos imersos na solidão do personagem em alto-mar. E se a criação de um belo pano de fundo para o desenrolar da história já não bastasse, ainda temos um tigre recriado digitalmente que beira a perfeição, tornando praticamente impossível distinguir as tomadas onde o animal real foi usado e onde o dublê digital assumiu a cena.

Mas não é em seu apuro visual que reside a força de As Aventuras de Pi, e sim em sua mensagem de otimismo e perseverança, representada pelo personagem principal.
E se faltam nomes conhecidos no elenco, somos presenteados com uma incrível interpretação do jovem Suraj Sharma que surpreendentemente segura a narrativa principal do filme praticamente sozinho, representando muito bem todos os estágios da vida de um náufrago, que aos poucos vai perdendo a esperança. É no mar que Pi reencontra sua fé, justamente na figura que o havia traumatizado anos antes, criando uma mensagem poderosa e nada piegas sobre a importância de acreditar em algo, nem que seja em si mesmo.

As Aventuras de Pi não é um filme sobre um náufrago em uma situação (ainda mais) inusitada. É sim uma história sobre como enfrentar adversidades. Sobre como enxergar o melhor lado de uma situação potencialmente traumática e transformadora. É sobre como se transformar para não se deixar ser transformado em sua essência. Sempre existe mais de uma maneira para enxergar algo, e cabe a cada um encontrar a melhor. Ang Lee certamente encontrou.

Marton Santos
Editor do Páprica. Paga no máximo 50 pratas por uma foto do Homem-Aranha cometendo algum crime. Twitter Facebook

One thought on “As Aventuras de Pi /// Crítica

  1. Nathalia Rodriguez says:

    Amo esse filme *———-*
    Parabéns ao diretor.

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