Lincoln /// Spielberg e sua obsessão pelo Oscar

24 de January de 2013 / autor: / em: Cinema 0

lincolnposter1 Lincoln /// Spielberg e sua obsessão pelo OscarFilmes com caracterizações de personagens históricos costumam render prêmios apenas nas categorias de atuação do Oscar. Que o digam Meryl Streep, Nicole Kidman e Helen Mirren. Mesmo assim, Lincoln é a aposta de Steven Spielberg para conseguir sua terceira estatueta como diretor, além de uma improvável segunda vitória na categoria Melhor Filme.

O longa marca os últimos meses da Guerra Civil Americana, que dividiu o país entre os estados do sul, que ainda escravizavam os negros, e os do norte, que lutavam pela reunificação da nação. Neste cenário de guerra, Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) vive os últimos dias de seu primeiro governo e aproveita o cenário político, que contava com vários congresistas em final de mandato, para aprovar a 13ª Emenda da Constituição, que consideraria todos os homens iguais perante a lei. Já reeleito e adorado pelo povo americano, Lincoln usa sua popularidade e seus aliados políticos para tentar aprovar a emenda que, apesar da resistência do partido Democrata, representaria o fim da guerra sem concessões aos estados ainda em regime escravocrata.

Apesar de explorar superficialmente a vida familiar do 16º presidente e focar-se mais nas maquinações políticas, é possível perceber o sutil equilíbrio da família gerenciada pela instável Primeira-Dama Mary Todd Lincoln (Sally Field) que, ainda atormentada pela morte precoce de um filho, tenta desesperadamente manter seus outros dois herdeiros em segurança, apesar dos esforços de Robert (Joseph Gordon-Levitt) em participar da luta armada. É com seu caçula, Tad (Gulliver McGrath), que vemos os momentos de ternura do presidente e vivenciamos um pouco de seu lado mais humano e menos personagem histórico.

Como não poderia deixar de ser, o longa se baseia em poderosas interpretações de um tripé que se sustenta, além de Day-Lewis e Field, em Tommy Lee Jones que empresta seu jeito turrão, porém terno, a Thaddheus Stevens, membro proeminente da ala radical do partido Republicano e ferrenho defensor dos direitos dos negros. A cena final de Jones no filme revela uma grata surpresa para quem não conhece os boatos que cercavam a vida do famoso congressista. Mas obviamente é a transformação de Daniel Day-Lewis o que mais espanta durante os 150 minutos de filme. A postura, a voz e os cacoetes de Lincoln foram mimetizados pelo ator de uma forma impressionante e será muito justo se as previsões sobre a premiação da Academia se confirmarem.  Não será o melhor papel das 3 estatuetas que o ator terá em casa, mas certamente irá coroar um trabalho primoroso de construção de personagem.

lincolnpost2 Lincoln /// Spielberg e sua obsessão pelo Oscar

Na parte técnica Spielberg é impecável como sempre, mas a trama política que se desenrola em gabinetes enfumaçados ou em plenários repletos de figurantes, não privilegia um grande trabalho de diretor. Os planos são burocráticos e monótonos como a discussão de meandros políticos que toma conta de boa parte do filme. Se a história é interessante, perde um pouco em ritmo, fazendo com que parecesse mais correto adaptar o roteiro para uma minissérie da HBO do que para um longa metragem para o cinema. A tela grande pouco acrescenta aos planos fechados e claustrofóbicos do longa, servindo apenas para deixar a figura de Lincoln mais impressionante em tela. Se Spielberg tem um grande mérito como cineasta neste longa, é o de mostrar com muita sensibilidade o atentado que tirou a vida do presidente 3 meses depois de sua mais importante vitória política. Sem entregar detalhes da cena, é muito mais duro sentir o que representou aquele tiro, para uma nação e para uma família, sem mostrar o tiro em si.

Com atores talentosos em atuações perfeitas, Lincoln é o tipo de filme para se acompanhar com atenção, tanto para captar as nuances da genial interpretação do papel título, quanto para não se perder nas jogadas e discussões políticas. Um compromisso inadiável para quem é fã de performances arrebatadoras. E Daniel Day-Lewis consegue isso como poucos em sua geração.

Marton Santos
Editor do Páprica. Paga no máximo 50 pratas por uma foto do Homem-Aranha cometendo algum crime. Twitter Facebook

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