O Mestre /// Paul Thomas Anderson questiona a natureza subserviente do ser humano

24 de January de 2013 / autor: / em: Cinema 3

omestrecartaz O Mestre /// Paul Thomas Anderson questiona a natureza subserviente do ser humanoPaul Thomas Anderson, sumido desde Sangue Negro (2007), retorna aos cinemas para nos presentear com mais uma obra sobre contradições, relações humanas e o início de um culto que promete, através de viagens no tempo em sua própria mente, resolver todos os seus problemas, inclusive doenças terminais, se esse for o caso.

Ainda nos primeiros segundos de O Mestre somos apresentados a Freddie Quell (Joaquin Phoenix) um marinheiro combatente da Segunda Guerra Mundial que, assim como seus companheiros de guerra, aguarda por orientações em uma praia qualquer. Porém, diferente dos outros soldados, Freddie parece um náufrago castigado por muito mais do que traumas de guerra. Se muitos daqueles homens em breve se sentiriam náufragos em suas próprias casas, Freddie simplesmente continuará sendo um, independente de onde for.

Na tentativa de lidar com seu passado mal resolvido, seja por decisões não tomadas, por herança de uma família perturbada ou ainda por traumas vividos na guerra, o ex marinheiro busca refúgio em drinques que fariam um motor funcionar (ou que pelo menos removeriam tinta de qualquer superfície). Em um dos melhores momentos do filme, Freddie é questionado quanto aos ingredientes utilizados em suas bebidas, ao que ele responde: “é segredo”. Fica a dúvida se Freddie tem vergonha de admitir que usa combustíveis inflamáveis ou se ele tem consciência que tais “segredos” também são ingredientes para a formação de sua alma atormentada.

omestrepost2 O Mestre /// Paul Thomas Anderson questiona a natureza subserviente do ser humano

São esses “segredos” que chamam a atenção do carismático e persuasivo (para os fracos) líder religioso Lancaster Dodd (Phillip Seymour Hoffman), “O Mestre” que da título ao filme. Ele vê na figura fraca de Freddie a oportunidade perfeita de validar os métodos do culto conhecido como “A Causa” que é claramente inspirado na Cientologia. Muitos, incluindo eu, esperavam uma crítica mais dura ao culto preferido de Hollywood, embora a fragilidade de suas filosofias esteja presente nas explosões de raiva do “mestre” em suas tentativas frustradas de defender seu trabalho contra os céticos e, em alguns momentos, contra seus próprios seguidores, capazes de enxergar contradições em suas obras.

Lancaster também vive o tormento de um homem que deveria liderar, mas que no fundo não sabe como viver sem um líder. Esse papel cabe a sua esposa Peggy Dodd (Amy Adams), que direciona e influencia o marido, em alguns momentos com a sua voz calma e controlada, em outros literalmente “na mão”. É curiosa a forma como Lancaster sempre olha para ela antes de seus discursos, como se estivesse fazendo reverência ao seu próprio mestre.

Joaquin Phoenix, em uma atuação monstruosa, nos entrega um personagem inquieto, com uma postura contorcida e uma boca torta de dar inveja ao Stallone. Tudo isso traduz o desespero de uma alma que busca um norte, mas que ao mesmo tempo insiste em se posicionar na traseira do barco, observando águas passadas. É desnecessário dizer que a atuação de Philip Seymour Hoffman também é excelente. O ator consegue trabalhar com maestria a calma superficial de seu personagem, que em alguns momentos some em questão de segundos, deixando a cara de Hoffman vermelha e a ponto de explodir. A dinâmica entre ele e Joaquin não permite que o espectador pisque na sala de cinema, principalmente nas cenas iniciais quando Freddie é submetido aos primeiros passos do culto em que “piscar é uma infração”. É como se o próprio diretor, orgulhoso do seu trabalho, estivesse te dando um sinal para não perder, o que na minha opinião foi a parte mais F$%# do filme.

Paul Thomas Anderson, mais uma vez genial, não se contenta em permitir que você participe dessa busca com Freddie. Ele faz com que você fique desconfortavelmente perto dele. Os planos fechados e a profundidade mínima de foco, fruto das lentes de 70mm, fazem com que você praticamente sinta o cheiro de álcool exalado pelo personagem. Esse é um recurso que apenas um diretor que confia na performance de seus atores é capaz de utilizar. São essas performances que garantiram a presença de O Mestre no Oscar. Melhor Ator para Joaquin Phoenix, Ator coadjuvante para Philip Seymour Hoffman e Atriz coadjuvante para Amy Adams. Achei injusto deixar Paul Thomas Anderson de fora da lista de Melhor Diretor, mas também, o dia em que o Oscar for uma premiação justa eu até aceito um gole do coquetel de gasolina preparado por Freddie.

Leonardo Santos
Trabalho por um prato de comida.

3 thoughts on “O Mestre /// Paul Thomas Anderson questiona a natureza subserviente do ser humano

  1. Excelente, Leo!! Adorei a crítica, mesmo além do cast ainda teve coisas que você reparou e eu não tinha me tocado, como o fato dele sempre olhar para mulher antes do discurso. Esse filme é fantástico. Fico pensando nele até agora. E mais uma vez, parabéns pelo excelente trabalho no site e no cast!!

  2. Davi Alves says:

    teste

  3. Logan says:

    Ele ta a cara do Mel Gibson.

Deixe um comentário