A Hora Mais Escura /// Kathryn Bigelow e a verdadeira Guerra ao Terror

zdtposterApesar de não chegar ao Oscar de 2013 com a mesma pompa e quantidade de indicações de seu último trabalho, Guerra ao Terror, a diretora Kathryn Bigelow consegue mais uma vez retratar as reminiscências do atentado de 11 de setembro nos Estados Unidos e em sua política externa. Mas mais do que isso, A Hora Mais Escura é a imagem de um país que, tal e qual um cachorro, persegue o próprio rabo.

O filme começa mostrando a chegada da frágil e assustada Maya (a indicada ao Oscar de Melhor Atriz Jessica Chastain) a uma instalação secreta do governo americano onde um prisioneiro é longa e exaustivamente torturado em busca de informações que levem a figuras importantes dentro da Al-Qaeda. Ela acaba de ser integrada à equipe da CIA que investiga o atentado ao World Trade Center no Paquistão e rapidamente se apega a uma pista que, por fim, acabará levando a localização e morte de Osama Bin Laden. Os meandros da investigação, becos sem saída, pistas falsas e toda a burocracia necessária para aprovar a operação que daria fim ao inimigo nº 1 dos Estados Unidos são bem representados no filme e demonstram bem os quase 10 anos passados entre o atentado e a morte do terrorista. Principalmente mostram a transformação de Maya de uma recém chegada insegura em alguém que consegue impor sua opnião diante do Diretor-geral da inteligência americana.

As semelhanças com Guerra ao Terror são impossíveis de deixar passar. Além de ambos os filmes retratarem as consequências da política externa americana pós 11 de setembro, as duas obras tentam retratar o preço pago pelas forças americanas atuantes em áreas de conflito. Enquanto o filme de 2008 mostrava o braço militar da operação deflagrada em 2001 e os danos causados aos milhares de combatentes enviados ao Iraque e ao Afeganistão, este mostra o trabalho da inteligência do país, que reúne provas e busca informações que determinarão as estratégias de ataque a determinadas células terroristas. Apesar de muito parecidos em sua forma e conteúdo, o novo filme peca pelo ritmo, pelo excesso de personagens, e também por seu desfecho já conhecido. Enquanto tememos pela segurança do amalucado personagem de Jeremy Renner em Guerra ao Terror, o desfecho de A Hora Mais Escura não consegue a mesma carga dramática por abordar uma operação detalhada a exaustão em todos os canais de TV por semanas a fio.

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Apesar de mostrar talento e competência para segurar o filme praticamente sozinha, visto que todos os outros personagens são meros coadjuvantes, será uma grande surpresa (para não dizer uma grande injustiça) se Jessica Chastain subir ao palco para receber um Oscar no próximo dia 24. Seu papel é totalmente unidimensional, não agregando nenhuma camada de drama para que uma performance merecedora de prêmios desponte. Não há motivação aparente, nem mesmo background para que sua busca implacável se torne minimamente verossímil. Impossível não lembrar do papel muito semelhante que Claire Daines desempenha na série Homeland e na dicotomia de sua personagem, que a humaniza e diferencia.

A Hora Mais Escura cumpre sua função como uma dramatização de um evento que marcou a história recente e, graças a sua natureza secreta, foi presenciado por um número reduzido de pessoas. Ao contrário do 11 de setembro, que foi um evento midiático, a morte de Bin Laden permanece obscura e é até mesmo cotidianamente esquecida por boa parte da população. O terrorista barbudo e que mora em cavernas permance vivo no imaginário popular. Uma espécie de bicho-papão que vai aterrorizar a cultura ocidental ainda por muitos anos. A grande pergunta levantada é aquela que o próprio semblante de Maya reflete ao final do filme. Bin Laden está morto. E agora?

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