As Sessões /// A metamorfose no casulo de metal

assesssoesposterAlguns filmes tem cara de independente. Esses filmes pequenos, que conquistam prêmios em vários festivais menos conhecidos mundo afora, cativam a audiência e, vez ou outra, acabam sendo uma grata surpresa no Oscar. Não foi esse o caso de As Sessões, do diretor e roteirista Ben Lewin. Talvez com a grande repercussão de O Lado Bom da Vida, a Academia tenha julgado que os indies já tinham ocupado espaço demais na premiação mais mainstream de Hollywood.

O longa conta a história real do poeta Mark O’Brien (John Hawkes) que contraiu poliomelite aos 6 anos de idade e desde então não controla os músculos do pescoço para baixo. Tendo que passar mais de dois terços de seus dias dentro de um pulmão de aço, Mark recebe o convite para escrever um artigo sobre sexualidade de pessoas com deficiência e, a partir daí, partirá em uma jornada de autoconhecimento com a ajuda da especialista eu consciência corporal Cheryl (Helen Hunt) e o auxílio moral e espiritual do Padre Brendan (William H. Macy).

Não bastassem as dificuldades físicas impostas a Mark pela doença, ele ainda sofre de uma severa dificuldade de se relacionar com as pessoas, especialmente mulheres. Algo realmente compreensível dada a fragilidade de sua situação e a série de dúvidas que passam por sua mente quando pensa em desenvolver um relacionamento. Mesmo em sua condição, Mark mantém uma fé inabalável e sua visão bem-humorada (e um pouco cínica) do mundo, o que, para todos os efeitos, o torna uma companhia muito melhor do que ele mesmo julga possível em sua baixa autoestima. Desde sempre as relações que Mark desenvolve com cuidadores e médicos envolve troca de dinheiro, não é de estranhar portanto que é justamente ao pagar alguém para que faça sexo com ele que o personagem se sente confortável para evoluir em sua maneira de lidar com as pessoas.

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Em um ano extremamente concorrido, é uma grande pena que John Hawkes não tenha sido ao menos indicado ao Oscar. Seria difícil tirar o prêmio de Daniel Day-Lewis ou Joaquin Phoenix, mas a indicação já seria uma forma de reconhecer o excelente trabalho realizado pelo ator. Já indicado por O Inverno da Alma, Hawkes consegue extrair o máximo de seu personagem sem apelar para nenhum tipo de expressão corporal. É na fuga com os olhos e no tom de voz que o ator consegue exprimir toda a timidez e fragilidade necessária em cena. Já Helen Hunt, essa sim indicada como Atriz Coadjuvante, não deve levar, mas tem uma merecida lembrança da Academia depois de um longo tempo dedicado a filmes independentes e de menor repercussão.

Mais do que uma história de superação, As Sessões mostra com bom humor uma situação dramática e que na mão de um diretor menos habilidoso poderia descambar para um dramalhão repleto de autocomiseração. A ausência de qualquer tom pastoral no filme, seja em relação aos dramas religiosos de Mark ou de suas limitações físicas são tratados de forma muito natural, o que notavelmente cria um discurso otimista e não intrusivo à narrativa principal do filme. Mark O’Brien, aos 38 anos, sente necessidade de romper seu casulo e aprender a voar, mas sem esquecer quem ele é, seus valores morais e sem prejudicar ninguém no caminho. Seu casulo é de metal e sua metamorfose ocorrerá apenas dentro de sua cabeça, mas até onde sabemos isso já é mais do que suficiente.

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  • Theo

    Vale a pena assisti lo gostei