12 Anos de Escravidão /// E como um filme pode despertar amor e repulsa sem ser visto

A notícia não é nova: 12 Anos de Escravidão foi eleito o Melhor Filme de 2013 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Junto aos outros dois Oscars, de Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante, o longa dirigido por Steve McQueen também angariou defensores apaixonados e detratores tão inflamados quanto. Até mesmo aqui, no Papricast 076 sobre os filmes indicados ao Oscar, dividimos nossa opinião quanto ao filme.

Mas o que chama a atenção, mais do que os argumentos e explanações a respeito da validade do filme, são as opiniões formadas por quem não o assistiu. Curioso perceber que um filme que trata de um tema tão delicado quanto a escravidão sofra com o preconceito do público e (o que é mais preocupante) também por parte da crítica e do mercado de cinema. Mais de 100 anos depois do fim da escravidão ainda é difícil analisar imparcialmente uma obra que trata do assunto sem parecer panfletário ou reacionário. O que de certa forma representa bem qualquer tomada de posição, hoje em dia.

12 Anos de Escravidão conta a história de Solomon Northup, um negro livre, nascido na américa e residente no norte dos Estados Unidos, que já havia abolido a escravidão anos antes. Ele é enganado, capturado e vendido para traficantes de escravos do sul do país, onde os fazendeiros ainda detinham amplamente a mão de obra escrava. A história choca pela crueza com que é filmada, em contraste com a beleza e serenidade das tomadas dirigidas por McQueen. Contrastando o belo e o abominável o diretor consegue mostrar, com uma realidade ímpar, as atrocidades vividas naquela época contra seres humanos. E tudo isso choca ainda mais por se tratar de uma história real, narrada pelo próprio Solomon Northup após conseguir provar sua liberdade e voltar para sua família.

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Apesar de não ser o meu favorito entre os filmes indicados em 2014, a validade da obra é incontestável. Bem maior até do que julguei em minhas primeiras análises. E dou aqui o braço a torcer: considerava o filme uma espécie de tapa na cara da sociedade de 1853, e já que estão todos eles mortos, apanhamos nós que estamos por aqui. Uma história que mostra novamente, de forma menos abstrata e mais cruel, como a escravidão foi um episódio lamentável na história da humanidade. Seria “mais do mesmo” para todos aqueles que concordam com o ponto de vista apresentado no longa (o que deveria incluir todos os seres humanos vivos no ano de 2014), mas infelizmente essa não é a realidade. Ainda há necessidade de mostrar a maldade em estado puro como a do personagem de Michael Fassbender para provocar um efeito espelho no racista enrustido. Ainda precisamos de uma atriz negra, em uma atuação fantástica de Lupita Nyong’o, implorando um mínimo de dignidade para que o público se apiede de sua condição. E ainda precisarmos disso é realmente uma pena.

Recentemente ganhou destaque na internet o texto de André Forastieri, onde ele cita 16 razões para não assistir 12 Anos de Escravidão. Eu poderia aqui, facilmente, citar 16 razões para não se ler nada que saia da cabeça de Forastieri, mas posso começar dizendo que não é papel do crítico (de qualquer área) afirmar que uma obra merece ou não ser apreciada. Um crítico deve adicionar camadas de entendimento e percepção que, julgue, o público pode deixar passar, incentivar o pensamento crítico e a promoção da arte. Logo, um “crítico” que não assiste ao filme e indica que seu público faça o mesmo, é apenas um desserviço ao cinema. Algo para ser ignorado formalmente. Uma maneira de mostrar preconceito desprovida de forma, de conteúdo e de talento.

Espanto igual surgiu com a notícia de que pelo menos 2 votantes da Academia teriam votado em 12 Anos de Escravidão para Melhor Filme sem terem assistido ao longa. Essa prática não é exatamente novidade e, provavelmente, os outros 8 indicados também receberam “votos de confiança”. Gente que, mesmo sem ter assitido a todos os indicados, vota em seu diretor favorito, em seu amigo, ex-colega, conhecido ou alguém com quem deseja trabalhar no futuro. Preocupante seria imaginar que mais votantes escolheram o filme por ele se encaixar em um nicho muito específico de filmes “com cara de Oscar”. A grandeza da obra dispensa os votos condescendentes.

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Se 12 Ano de Escravidão serviu para reavivar o debate sobre a discriminação do negro na sociedade, também serviu para despertar o preconceito contra o cinema. Justo num meio onde forma e conteúdo trabalham juntos para criar emoções, é decepcionante ver supostos especialistas tratando-os de forma tacanha e dissociada. Assistir a um filme não é como ler um livro de história. Na tela grande fatos são menos importantes que impressões e sentimentos despertados. O debate é mais importante que a mensagem. O decorrer é mais gratificante do que o final.

Resumindo: assista ao filme. Não deixe o preconceito te vencer.

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  • http://twitter.com/juliadahora Juliana Rocha (@juliadahora)

    “Na tela grande fatos são menos importantes que impressões e sentimentos despertados. O debate é mais importante que a mensagem. O decorrer é mais gratificante do que o final.” Ótimo texto Marton! Concordo bastante exatamente porque já assisti o filme! Alguns não conseguiram enxergar mas 12 anos de escravidão conseguiu trazer a tona debates importantes e também facetas da nossa sociedade que pareciam não existir mais, porém estavam apenas adormecidas. E se um filme consegue exercer esse papel, merece o nosso respeito! Parabéns, compartilharei o texto!

  • https://www.facebook.com/andrebramelo André Brandão

    A escravidão no Brasil foi tão ou pior quanto a americana, e ainda assim o Brasil não conseguiu produzir uma obra sequer que demonstre de modo tão visceral a condição do escravo. Toda obra cultural que trate da escravidão brasileira cai no clichê e nos estereótipos. O filme do Steve McQueen não dá um tapa na cara da sociedade, mas sim uma voadora com os dois pés no peito. E quanto a André Forastieri, é só mais um velho jornalista que já teve seu momento e que gosta de criar polêmicas para voltar a ter evidência.