Ender’s Game: O Jogo do Exterminador /// Quando a guerra é levada na brincadeira

endersgamecartazImagine um mundo onde as crianças sejam recrutadas para lutar na guerra. Onde ações genocidas são justificadas pois combatem o medo e a insegurança de um povo. Ok, eu sei… não precisa imaginar. Nós vivemos em um mundo igualzinho, mas em Ender’s Game: O Jogo do Exterminador, filme dirigido por Gavin Hood, somos apresentados a uma Terra futurista onde tudo isso é aceito e usado para proteger o planeta da invasão dos Formics, uma espécie alienígena parecida com formigas e que querem destruir nosso modo de vida.

Baseado na obra literária de Orson Scott Card, o longa mostra que pré-adolescentes são muito mais eficazes no manejo de armas e táticas para derrotar os formics. Por isso, centenas de jovens são recrutados e levados para uma estação orbital conhecida como Escola de Combate, onde desenvolverão seus talentos militares para proteger nosso planeta de um possível novo ataque. Ender Wiggin, interpretado por Asa Butterfield, é o mais proeminente desses recrutas, tanto que o Coronel Graff, vivido por Harrison Ford, acredita que ele poderá se tornar o comandante que vencerá definitivamente os alienígenas.

O longa, assim como o livro, apresenta uma série de conceitos muito interessantes e que colocam em perspectiva algumas decisões militares e políticas das guerras reais e que nunca param de acontecer pelo mundo. O grande herói da humanidade, responsável por debelar a primeira invasão, é um kamikaze, tal qual os criticados japoneses da Segunda Guerra Mundial. Crianças sendo usadas como soldados são vistas aos montes em qualquer guerra entre facções na África. Militares de patente superior que contam apenas meias verdades não podem faltar em qualquer bom roteiro de filme bélico. Como toda boa ficção científica, Ender’s Game consegue tratar de situações atuais usando alegorias futuristas, mostrando de forma menos gráfica o mesmo horror da guerra visto em qualquer filme de Vietnã. E essa talvez seja a visão mais interessante do longa: a guerra “limpa”, onde comandantes sentados em salas com ar-condicionado comandam drones e outras máquinas avançadas capazes de eliminar seus inimigos praticamente sem correr riscos. Essa guerra feita de pixels e disfarçada de videogame, mas que mata tanto quanto qualquer combate homem a homem.

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Mas apesar de todas as possíveis interpretações e paralelos com nossas guerras reais, Ender’s Game possuí uma trama simples que ganha força em personagens interessantes e atuações dignas, especialmente do jovem protagonista. Asa Butterfield, que já havia mostrado talento em A Invenção de Hugo Cabret, prova que veio para ficar no primeiro time de Hollywood e não se acovarda diante de atores competentes como Harrison Ford, Viola Davis e Ben Kingsley. Tanto é que a luta pela sobrevivência da espécie humana fica em segundo plano diante das experiências de Ender durante o treinamento cruel ao qual é submetido e seu crescimento como personagem. Não fosse comprometer a dinâmica final do longa, uma participação maior de alguns coadjuvantes seria bem-vinda.

Em um mercado recheado de franquias adolescentes, Ender’s Game se destaca por uma trama mais política e que talvez, justamente por isso, não caia tanto nas graças do público mais jovem. O longa teve um desempenho nada extraordinário nos Estados Unidos e depende da bilheteria no exterior para garantir uma sequência. O que não falta é material para ser adaptado, já que a série literária conta com 13 publicações e muitos desdobramentos da trama principal. Apesar de mostrar uma trama relativamente fechada, especialmente para os padrões atuais onde tudo tem a obrigação de virar franquia, o longa encerra com um gancho interessante e uma preocupação moral invejável em blockbusters do tipo. Agora resta saber se Ender conseguirá derrotar alienígenas, super-heróis, bruxos e vampiros adolescentes por um lugar nas salas de cinema nos próximos anos.

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  • https://www.facebook.com/pedromarinelli Pedro Marinelli

    O filme é espetacular! Apesar de todas a mensagens e interpretações as “alegorias” empolgam e criam um show de efeitos gráficos que por si só já vale o ingresso.
    Tudo isso bem amarrado e sustentado pelos personagens e seus conflitos bem interpretados faz desse filme um dos melhores sci-fi do ano.

  • Cesar Adr

    A melhor critica que encontrei na internet. O filme é sobre os primeiros passos de um grande lider da Terra e a história de Ender traz bons momentos de reflexão e infelizmente quando surgi um blockbuster diferente as pessoas não conseguem se “divertir”. Se o filme não tiver continuação, talvez seja até melhor, o final da uma aura especial a ele.

  • https://www.facebook.com/clebersonbalbino Cleberson Balbino

    Um bom filme, Asa Butterfield tem uma personalidade bem interessante, este menino tem futuro. A história foi bem contada, mas recomendo ler o livro para fechar alguns pontos.

  • http://twitter.com/Junior_W_K Waldir Krisanski (@Junior_W_K)

    o/

  • Lucien

    Estou ansioso por este filme, a momentos que a sinopse mostra um velho Anime que assistia chamado Evangelion e claro que e totalmente diferente em certos aspectos mais tem suas particularidades